
Artigo
Beirigo, Giovani
O termo partnership ganhou força no mercado jurídico e corporativo brasileiro nos últimos anos. Escritórios de advocacia, consultorias e muitas empresas de tecnologia vêm adotando essa estrutura como sinônimo de profissionalização e perpetuidade. Por trás desse “anglicismo” moderno, está uma lógica antiga: compartilhar propriedade e poder de decisão com quem gera valor.
No Brasil, o partnership ainda é mal compreendido. Para muitos, virou apenas um slogan de marketing para reter talentos. Para poucos, é de fato uma engrenagem de governança que garante continuidade e alinha interesses.
Sabemos o que partnership realmente significa?
O modelo nasceu nos grandes escritórios de advocacia norte-americanos e ingleses no século XIX.
A lógica era simples: só se tornava “partner” aquele que provava competência, lealdade e capacidade de gerar negócios. O título não era entregue como promoção de RH, mas como conquista que vinha junto com responsabilidade patrimonial. Nos Estados Unidos, os law firms cresceram com base nesse modelo: advogados seniores compravam uma fração da sociedade e passavam a compartilhar riscos e lucros. Na Inglaterra, o formato de equity partners e non-equity partners consolidou uma distinção clara: alguns sócios dividiam o capital, outros apenas recebiam participação nos resultados sem interferência patrimonial.
Esse desenho atravessou fronteiras e chegou ao Brasil especialmente pelos escritórios de advocacia corporativa que se inspiravam em modelos estrangeiros. Aos poucos, a lógica foi incorporada também por auditorias, consultorias e até empresas familiares em busca de sucessão planejada.
No Brasil, a palavra partnership se espalhou, mas muitas vezes perdeu sua essência. Guilherme Benchimol pode ter sido um dos primeiros grandes nomes a difundir o conceito nas terras tupiniquins. Em alguns escritórios, virou apenas um sistema de bônus sofisticado, sem participação real no capital. Em outros, transformou-se em um clube fechado: sócios vitalícios, sem espaço para renovação, chamando de “parceiros” advogados que, na prática, não tinham poder algum. Já em empresas familiares, a adoção foi tímida: muitos herdeiros confundem parceria com herança, e não há clareza sobre meritocracia ou responsabilidade.
O resultado é que grande parte das organizações brasileiras diz operar sob um partnership, mas ainda lida com opacidade, insegurança jurídica e dificuldade em estabelecer regras claras.
Por que o partnership importa?
O partnership não se restringe a fazer um contrato e acabou. É uma cultura de perpetuidade do negócio.
Ele resolve três dores centrais de qualquer empresa que queira longevidade:
Perpetuidade: o negócio deixa de depender apenas do fundador.
Alinhamento: sócios que “têm pele em jogo” pensam como donos, não como empregados de luxo.
Meritocracia: o título de sócio precisa ser conquistado por quem gera resultado e agrega valor, e não entregue como favor ou formalidade.
No M&A (fusões e aquisições), a existência (ou não) de um partnership bem estruturado pesa diretamente no valuation e na atratividade estratégica do business. Isso porque investidores sabem que sociedades desorganizadas, com poder concentrado ou sem regras claras de entrada e saída de sócios, são bombas-relógio.
Os desafios do modelo no Brasil
Apesar dos avanços, ainda enfrentamos obstáculos para consolidar partnerships sólidos:
Cultural: a visão patrimonialista e centralizadora ainda é forte. Muitos fundadores têm dificuldade de dividir poder.
Jurídico: a legislação societária brasileira não oferece um “molde pronto” para partnership, exigindo criatividade contratual e protocolos robustos.
Prático: transformar colaboradores em sócios exige planejamento financeiro, avaliação de quotas e definição clara de direitos e deveres.
O futuro do partnership no país
O mercado mostra que empresas e escritórios que levam o modelo a sério conseguem reter talentos, crescer de forma sustentável e até se posicionar melhor em processos de M&A.
Mas, para que o partnership brasileiro amadureça, precisamos:
Tratar o título de sócio como responsabilidade patrimonial, não como prêmio simbólico.
Estabelecer critérios objetivos de ingresso e saída.
Criar acordos de sócios robustos, que contemplem desde distribuição de lucros até cláusulas de não competição.
Vincular o modelo à governança, com conselhos ativos e processos de decisão claros.
O partnership não é uma moda qualquer. É uma resposta antiga para um problema eterno: como garantir continuidade e alinhamento em uma sociedade.
No Brasil, ainda há muito caminho a percorrer. Mas uma coisa é certa: empresas que enxergam o partnership apenas como ferramenta de retenção perdem a chance de transformá-lo em verdadeira estratégia de perpetuidade.
Se sua empresa ou escritório está avaliando implantar ou revisar um modelo de partnership, fale comigo clicando aqui.
O Autor, Giovani Beirigo, é advogado empresarial, especialista em Direito Societário, Governança Corporativa e em operações de Fusões e Aquisições (M&A). Sócio do Baum, Beirigo & Milani Advogados.




